O Carrapato por Trás da Doença
A doença de Lyme é uma infecção bacteriana causada pela Borrelia burgdorferi, transmitida aos cães — e aos humanos — pela picada de carrapatos infetados. Em Portugal e no Brasil, o vetor primário é o Ixodes ricinus, vulgarmente conhecido como carrapato-da-ovelha ou carrapato-da-mamona. Estes pequenos artrópodes encontram-se em todo o território, sendo particularmente prevalentes em florestas, charnecas e zonas de vegetação alta. O número de carrapatos tem aumentado nos últimos anos, em parte devido aos invernos mais suaves e à expansão das populações de veados, tornando a doença de Lyme uma preocupação cada vez mais relevante para os proprietários de cães.
Nem todo o carrapato transporta Borrelia, e nem toda a picada de um carrapato infetado resulta em doença. O carrapato geralmente precisa de estar fixado durante 24 a 48 horas antes de a transmissão se tornar provável, razão pela qual inspeções frequentes e regulares ao cão são tão importantes.
Reconhecer a Doença de Lyme em Cães

Um dos desafios da doença de Lyme é que a maioria dos cães infetados nunca desenvolvem sinais clínicos. Quando a doença ocorre, os sintomas podem ser vagos e mimetizar muitas outras condições, o que pode atrasar o diagnóstico. Os sinais mais frequentemente reportados incluem:
- Claudicação, frequentemente alternando entre patas, que pode aparecer e desaparecer ao longo de dias ou semanas
- Inchaço e dor articular
- Letargia e redução do apetite
- Febre
- Linfonodos inchados
A clássica erupção circular em "olho de touro" observada em humanos é raramente observada em cães devido ao seu pelagem. Uma complicação mais grave, a nefrite de Lyme — uma doença renal com perda de proteína — pode desenvolver-se num pequeno número de cães, particularmente em Golden Retrievers e Labrador Retrievers, e tem um prognóstico reservado. Os sinais do envolvimento renal incluem vómitos, perda de peso, aumento da sede e micção, e acumulação de líquido no abdómen.
Testes e Diagnóstico

O diagnóstico é baseado numa combinação de sinais clínicos, historial de exposição a carrapatos e testes sorológicos. O teste inicial mais comum é um teste rápido realizado na clínica que deteta anticorpos contra proteínas específicas de Borrelia. Um resultado positivo indica exposição, mas nem sempre significa que o cão está ativamente doente pela infeção.
O teste de anticorpos C6 quantitativo fornece um nível numérico que pode ser usado para monitorizar a resposta ao tratamento. A contagem sanguínea completa, bioquímica e análise de urina também devem ser realizadas para avaliar o envolvimento renal e descartar outras condições. Em cães com suspeita de nefrite de Lyme, o teste do rácio proteína-creatinina urinária é essencial.
Vale a pena notar que os anticorpos podem persistir na corrente sanguínea durante meses a anos após a infeção ou vacinação, portanto um teste positivo deve ser sempre interpretado no contexto dos sinais clínicos e do historial.
Opções de Tratamento
Os cães diagnosticados com doença de Lyme clínica são tipicamente tratados com um curso de doxiciclina, um antibiótico administrado por via oral durante quatro semanas. A maioria dos cães mostra uma melhoria significativa dias após o início do tratamento. A amoxicilina é uma alternativa para cães que não toleram a doxiciclina.
O alívio anti-inflamatório da dor pode ser prescrito juntamente com antibióticos para cães que sofrem de dor articular significativa. Cães com nefrite de Lyme requerem uma gestão mais intensiva, frequentemente incluindo uma combinação de antibióticos, terapia imunossupressora, modificação dietética e cuidados de suporte para a função renal.
Mesmo com tratamento antibiótico bem-sucedido, alguns cães podem manter anticorpos residuais por um período prolongado. O teste C6 quantitativo repetido três a seis meses após o tratamento é frequentemente recomendado para avaliar se os níveis estão a diminuir, o que indica uma boa resposta.
Prevenção de Carrapatos: A Estratégia Mais Eficaz
A prevenção é inequivocamente preferível ao tratamento. Um programa robusto de prevenção de carrapatos para o seu cão deve incluir:
- Utilização durante todo o ano de um antiparasitário aprovado pelo veterinário. As opções incluem tratamentos para aplicar na pele, comprimidos mastigáveis orais e colares anti-carrapatos. Os produtos contendo fluralaner, afoxolaner, sarolaner ou lotilaner eliminam carrapatos rapidamente e têm boas evidências científicas por trás deles.
- Inspeções minuciosas ao cão após cada passeio em áreas de alto risco. Passe os dedos lentamente pela pelagem do seu cão, prestando especial atenção à cabeça, orelhas, pescoço, virilha, axilas e entre os dedos.
- Remoção rápida e correta do carrapato usando um removedor de carrapatos ou pinças de ponta fina. Agarre o carrapato o mais próximo possível da pele e puxe para cima com pressão constante e uniforme. Evite torcer, esmagar ou aplicar substâncias no carrapato, pois estes métodos podem aumentar o risco de transmissão.
Vacinação contra a Doença de Lyme
Uma vacina contra a doença de Lyme está disponível em Portugal e no Brasil e vale a pena discutir com o seu veterinário se o seu cão vive em ou visita regularmente áreas de alto risco. A vacina é utilizada juntamente com, e não em substituição de, medidas de prevenção de carrapatos. A vacinação inicial requer duas doses administradas com um intervalo de duas a quatro semanas, seguidas de reforços anuais.
Para cães com elevada exposição a carrapatos, combinar a vacinação com produtos anti-carrapatos fiáveis oferece a proteção mais abrangente atualmente disponível. Fale com o seu veterinário sobre o programa mais apropriado para o estilo de vida do seu cão e a carga de carrapatos na sua área.
