A Ascensão do Tramadol na Medicina Veterinária
Durante aproximadamente duas décadas, o tramadol foi um dos medicamentos para a dor mais prescritos na prática veterinária de pequenos animais. Era considerado uma opção útil, relativamente acessível e razoavelmente segura para controlar a dor moderada em cães — particularmente após cirurgias e em casos de dor crónica causada por condições como osteoartrite ou cancro. Os veterinários prescreviam-no rotineiramente, os donos administravam-no em casa, e parecia ser uma parte sensata do arsenal analgésico.
Depois a investigação acompanhou a prática clínica, e o panorama tornou-se consideravelmente mais complicado. Atualmente, o tramadol ocupa uma posição muito mais nuançada na medicina veterinária — ainda utilizado em alguns contextos, mas com ressalvas significativas que alteraram fundamentalmente a forma como os veterinários o consideram para pacientes caninos.
Como o Tramadol Deveria Funcionar
O tramadol é classificado como um opioides atípico. Em humanos, funciona através de dois mecanismos principais: liga-se aos receptores mu-opioides no sistema nervoso central para reduzir a percepção da dor, e inibe a recaptação de serotonina e noradrenalina — neurotransmissores envolvidos na modulação dos sinais de dor. Em conjunto, estas ações produzem um efeito analgésico bem documentado na medicina humana.
Durante muitos anos, assumiu-se que este mesmo mecanismo funcionaria nos cães. Não funciona — pelo menos não da mesma forma. O problema reside na forma como os cães metabolizam o tramadol. O metabolito analgésico ativo do tramadol em humanos é o O-desmetiltramadol (M1), que tem uma afinidade muito maior pelos receptores opioides do que o composto original. Os cães convertem o tramadol em M1 muito mal e muito lentamente em comparação com os humanos, o que significa que o componente opioides da ação do tramadol está substancialmente diminuído em pacientes caninos.
O Que a Investigação Realmente Mostra
Múltiplos estudos publicados a partir de meados dos anos 2010 em diante começaram a questionar seriamente se o tramadol proporcionava analgesia significativa nos cães. Um estudo marcante publicado em 2015 na revista Veterinary Surgery comparou tramadol, carprofeno e placebo em cães com osteoartrite e não encontrou diferença significativa entre tramadol e placebo em medidas objetivas de dor e mobilidade. O carprofeno, por contraste, mostrou benefício claro.
Os estudos farmacocinéticos subsequentes confirmaram o que a investigação clínica sugeria: as concentrações plasmáticas de M1 alcançadas em cães após administração oral de tramadol estão muito abaixo do necessário para ativação clinicamente significativa dos receptores opioides. A inibição da recaptação de serotonina e noradrenalina ainda ocorre, e isto pode proporcionar algum benefício modesto — mas não é o efeito analgésico robusto que era originalmente assumido.
Isto não significa que o tramadol não faça nada em cães. Significa que provavelmente faz consideravelmente menos do que era acreditado, e significativamente menos do que faz em humanos e gatos.
Tramadol em Gatos: Uma História Diferente
Vale a pena notar que a situação em gatos é bastante diferente. Os gatos produzem M1 em níveis mais elevados do que os cães, e o tramadol demonstrou proporcionar analgesia significativa em pacientes felinos. É utilizado para o tratamento da dor aguda e como parte de protocolos pós-operatórios em gatos, e a base de evidências para o seu uso nesta espécie é consideravelmente mais forte do que em cães.
Esta diferença entre espécies é um lembrete útil de que a farmacologia veterinária não pode ser generalizada entre animais. Um medicamento que funciona bem numa espécie pode ser ineficaz ou perigoso noutro, e o histórico do tramadol em cães ilustra por que a investigação específica de espécies é importante.
O Tramadol Ainda é Utilizado em Cães?
Sim — mas as indicações reduziram-se consideravelmente. Em alguns países e práticas, continua a ser utilizado como parte do controlo multimodal da dor, particularmente quando o objetivo é focar no componente serotoninérgico da modulação da dor em vez de ativação dos receptores opioides. Pode ter um papel no tratamento da dor neuropática ou central, onde a alteração da recaptação de neurotransmissores pode oferecer algum benefício independente do mecanismo opioides.
Também é ainda utilizado em contextos onde outras opções não estão disponíveis, são proibitivas em termos de custo, ou estão contraindicionadas. Em cães onde os AINEs não podem ser utilizados devido a doença renal ou preocupações gastrointestinais, e onde o acesso a opioides mais potentes é limitado, o tramadol pode representar uma escolha pragmática, ainda que imperfeita.
Nos Estados Unidos, o estado do tramadol mudou em 2014 quando foi colocado na Tabela IV da Lei de Substâncias Controladas, tornando-o mais fortemente regulado e adicionando carga administrativa à sua prescrição. Isto contribuiu para um declínio no seu uso em algumas práticas. No Reino Unido e Europa, as regulações diferem, mas os hábitos de prescrição ainda mudaram conforme a base de evidências amadureceu.
O Que Deveria Substituir o Tramadol no Controlo da Dor em Cães?
Para cães com dor crónica causada por osteoartrite, a evidência atual apoia fortemente os AINEs como a pedra angular do tratamento, juntamente com gestão do peso, fisioterapia e modificação ambiental. A gabapentina é um adjuvante bem apoiado para dor neuropática. Novas opções como o anticorpo monoclonal bedinvetmab, que segmenta o fator de crescimento nervoso para reduzir a dor da osteoartrite, estão a demonstrar considerável promessa.
Para dor aguda e pós-operatória, verdadeiros opioides como buprenorfina, metadona e fentanilo — utilizados sob supervisão veterinária e regulações apropriadas de medicamentos controlados — oferecem analgesia muito mais fiável do que o tramadol. As técnicas de anestesia local e bloqueios de nervos regionais também estão cada vez mais incorporadas nos protocolos de dor cirúrgica.
A lição do tramadol em cães não é que o medicamento seja prejudicial — é relativamente bem tolerado — mas sim que a eficácia assumida com base em dados humanos não é uma base fiável para prescrição veterinária. Os cães não são humanos pequenos, e as ferramentas farmacológicas que utilizamos para controlar a sua dor precisam de ser escolhidas com base em evidências desenvolvidas especificamente em pacientes caninos. A boa notícia é que a base de evidências para o controlo da dor em cães cresceu substancialmente, e existem opções melhor apoiadas disponíveis do que nunca.
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